O incrível Estandarte de Ur – Parte 2

Imagine que você está num palácio em que um banquete real está sendo servido. Imaginou? O que veio à sua mente? Talvez você tenha imaginado rei vestido com roupas típicas da realeza, sendo ovacionado por seus convidados e súditos. Músicos tocando para tornar o ambiente mais alegre e agradável. Comida e bebida sendo postas à mesa… É provável que ao criar essa imagem mental, você tenha esboçado vestimentas e decorações recentes, talvez tenha pensado no Renascimento ou na Idade Média. Mas estamos falando de um evento ocorrido milhares de anos antes da era medieval.

Um banquete real foi registrado há a cerca de 4500 anos atrás no Estandarte de Ur, e apesar de ter ocorrido há tampo tempo, ele reflete muito bem algumas características de nossa atual sociedade. Vamos analisar dessa vez o outro lado do Estandarte de Ur, o painel conhecido com Paz.

Assim como o painel da Guerra, que você pode rever clicando aqui, o painel da Paz é um mosaico feito de lápis-lazúli, calcário, ouro e betume e decora uma das faces do magnífico Estandarte de Ur encontrado por Leonard Woolley no início do século 20. Esse painel também traz uma interessante narrativa dividida em três linhas horizontais, mas dessa vez as cenas são mais felizes e até triviais, algo que claramente influenciou a escolha de seu nome.

Na linha inferior vemos uma fila de homens carregando pacotes em suas costas, alguns usam uma espécie de saco cheio com o que talvez sejam produtos da terra, ou o resultado de uma expedição comercial. Caminhando junto deles estão alguns jumentos, animais que eram muito usados na época para todo tipo de atividades e que inclusive foram retratados no painel da Guerra puxando engenhosos carros de combate.

ATÉ AS ESCAMAS DOS PEIXES FORAM DESENHADAS

Na linha do meio, vemos mais um grupo de figuras em movimento. Além dos humanos, estão retratados também animais de várias espécies. Vemos bois, que eram usados para tração de carros e para arar a terra, veja que um homem carrega alguns peixes nas mãos e é possível identificar também alguns carneiros que eram animais muito úteis por sua lã, usada como matéria prima de tecidos e roupas. Alguns argumentam que as cenas retratadas nessas duas primeiras linhas fossem a preparação para o que está registrado logo acima.

Na linha superior vemos o destaque do painel, o grande banquete! Consegue identificar todos detalhes sobre o qual falamos lá no início? O rei e sua roupa cara, os convidados e os músicos?

Repare que o artifício usado para dar destaque ao homem mais importante do evento no Painel da Guerra é novamente é aplicado, e por causa disso, ao passar os olhos pelo “salão do banquete”, nossa atenção é rapidamente captada pela figura mais alta, cuja cabeça ultrapassa os limites do mosaico. Esse é o rei, o anfitrião da festa. Ele se diferencia dos demais por uma roupa bem característica, usada pelos homens poderosos daquela época. Repare abaixo, à esquerda, a estatueta de Ebih-Il, destacado líder na cidade de Mari, que ficava uns 750 km à noroeste de Ur. A estátua data do século 25 a.C. Compare as vestimentas usadas pelo rei no Estandarte, à direita, e pelo homem na estatueta. A semelhança não é mera coincidência, mas sim um costume regional, talvez a moda da época.

Posicionados à frente do rei, dois servos se mostram solícitos em atender o anfitrião e as seis destacadas figuras sentadas em direção à ele. Note que os seis homens sentados, com copos nas suas mãos, são destacadamente maiores que os serviçais, mas não maiores que o rei. Talvez fossem homens da “nobreza” local, inferiores ao rei, mas superiores aos servos.

Cabe ainda ressaltar mais um detalhe curioso, as cadeiras em que o rei e seus convidados estão sentados possuem três pernas normais e uma perna semelhante à de um animal. O significado dessas cadeiras, se é que havia algum, ainda permanece um mistério.

OS MÚSICOS DE UR E A LIRA COM CABEÇA DE TOURO

Agora concentre-se no fundo do salão, na extrema direita. Um par de músicos está de pé e traz alguns detalhes que merecem nossa atenção (detalhe ao lado). Primeiro, vemos o que seria uma mulher de longos cabelos negros cantando e à sua frente está um homem tocando lira. Preste atenção aos detalhes da lira e você verá mais um atestado da genialidade de quem criou esse incrível artefato. O instrumento possui uma cabeça de touro que é bem parecida com a lira da imagem ao fim do post, encontrada também em escavações na região de Ur, atual Iraque.

Esse artefato tão antigo, feito através de métodos que hoje podem ser tachados de rústicos, é um rico registro daquela sociedade. Se realizarmos uma contagem, vamos achar algumas dezenas de serviçais, meia dúzia de nobres e um rei. Números que servem com evidência de que na cidade de Ur existia uma sociedade bem estruturada e hierarquizada. O Estandarte de Ur mostra como eles travavam suas batalhas e celebravam suas vitórias. E vemos que as diferenças sociais não são exclusividades recentes. Tudo isso fica bem evidente graças aos cuidadosos detalhes inseridos nesse pequeno, porém precioso, registro milenar que narra de uma forma admirável como era a sociedade na antiga e distante cidade de Ur.

UMA DAS LIRAS ENCONTRADAS NAS ESCAVAÇÕES EM UR

FONTES:

britishmuseum.org

wikipedia.org

mesopotamia.co.uk

louvre.fr

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