Mitos sobre a Idade Média – O Cinto de Castidade

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Falar em cinto de castidade é relembrar a Idade Média. Logo nos vem à lembrança aquela memorável cena do marido, talvez um comerciante ou um cavaleiro que, antes de seguir viagem, tranca as partes íntimas de sua esposa para proteger a honra da mulher e, de quebra, afastar potenciais substitutos. Dessa forma o marido poderia viajar tranquilo e evitar fraquezas ou infidelidades da solitária esposa.

Um artefato usado na idade média por maridos ciumentos que tentavam garantir proteção à sua honra – essa é a mais comum visão que se tem sobre esse controverso dispositivo. E essa visão ganha força quando o grande público encontra cintos de castidade expostos como peças originalmente medievais em museus e antiquários. Mas análises recentes têm levado historiadores a rever esse conceito.

Já que, por convenção, a Idade média corresponde ao período de tempo entre os séculos 5 e 15 d.C, seria sensato esperar que as evidências do uso desse objeto também fossem dessa época. No entanto, tal sensatez em esperar por essas evidências foi substituída por uma avidez em encontrá-las, e dessa forma o conceito que habita o imaginário popular se proliferou. Mas vamos observar os fatos mais de perto.

CINGULUM CASTITATIS

O termo em latim para cinto de castidade, cingulum castitatis, existe há mais de 1000 anos. Mas durante o período medieval, esse termo não tinha nada a ver com o objeto trancável*. Ele era usado como um conceito teológico, uma metáfora para se referir à pureza moral, limpeza e até à própria abstinência.

Um pouco mais tarde, lá por volta do século 16, o termo já difundido em outros idiomas, era comumente usado entre duas pessoas que estavam prometendo fidelidade mútua, mas novamente tratava-se de uma metáfora e não significava que as duas usariam um cinto de castidade.

BELLIFORTIS

A ILUSTRAÇÃO DE KONRAD KYESER

A primeira descrição do que seria um cinto de castidade está registrada e ilustrada no livro Bellifortis. Este é um livro de tecnologia militar escrito pelo engenheiro alemão Konrad Kyeser por volta de 1405, já no fim do período medieval. Em Bellifortis, Kyeser menciona calças de ferro fechadas na parte da frente que seriam usadas pelas mulheres de Florença. Ele escreveu seu texto em latim, mas em momento algum o termo em latim para cinto de castidade aparece no livro. Some-se a isso o contexto e o tom um tanto brincalhão usado por Kyeser em sua descrição e você  então entenderá porque alguns historiadores creem que, na verdade, ele estava apenas sendo irônico enquanto insinuava que as florentinas não estavam dispostas às investidas de soldados.

AUTENTICIDADE E ORIGEM

Se as considerações acima ainda não foram suficientes para justificar uma revisão de conceito, o próximo fato fará o serviço: simplesmente não existem exemplares de cintos de castidade que tenham sido comprovadamente fabricados durante a idade média! Mas aí você pergunta: e os que estão em exposição nos museus? Aqueles não passam de supostas cópias e conceitos do que seriam os cintos de castidade medievais e foram construídos por volta dos séculos 18 e 19. Exemplos:

EXEMPLAR DO MUSEU BRITÂNICO (CLIQUE PARA AMPLIAR)
  • Até o ano de 1990, o renomado Museu Britânico mantinha em exposição um modelo de cinto de castidade medieval,. Após uma análise criteriosa, o exemplar foi retirado de exibição, a data de fabricação foi alterada para ‘séculos 18-19 (?)’ e, no seu catálogo online, foi rotulado como “fake”, falso em inglês.
  • Em 1996, o Museu Nacional da Idade Média, em Paris, realizou um teste no metal de seu exemplar que até então era exposto como tendo sido usado por Catarina de Médici (1519 – 1589). Como resultado, o nome de Catarina foi removido e o exemplar foi datado como proveniente do século 19 (sempre ele).

A grande maioria dos verdadeiros cintos de castidade que hoje estão exposição são peças mais recentes, na verdade do fim do século 18. Quando a Revolução Industrial começou a gerar mudanças no local de trabalho por incluir mulheres entre os homens que já estavam acostumados às fábricas, era comum que mulheres voluntariamente usassem tais cintos que preveniam ataques sexuais e até recorrentes casos de estupro. Muitos homens trabalhavam sob o efeito do álcool e não havia toda a legislação que hoje tenta garantir os direitos dos trabalhadores. Outro uso comum era por recomendação médica, para controlar impulsos sexuais e para prevenir a masturbação, que na época era considerada uma doença grave. Nesse caso, o uso era comum tanto por homens quanto mulheres.

Vale ressaltar que, nesse período mais recente, o uso era limitado a algumas horas do dia e os modelos da época eram menos agressivos que seus supostos ‘antepassados medievais’; alguns eram feitos de couro, outros eram revestidos por uma camada de camurça regularmente trocada. E eis aí mais um argumento que aponta falhas no conceito comum do uso durante a idade média: vestir um aparato de ferro e mantê-lo em contato direto com a pele por dias à fio; isso certamente iria gerar mais do que fidelidade – cortes, feridas, infecções e até a morte seriam as consequências esperadas.

OS CULPADOS

Um pouco mais tarde, em 1931 pra ser exato, Eric John Dingwall publicou The Girdle of Chastity, um livro que ajudou a difundir o mito medieval. Mas mesmo sendo o primeiro historiador a publicar algo sobre o assunto, ele não pode receber toda a culpa. Pois os museus estavam cheios de exemplares que eram exibidos e assimilados como pertencentes à idade média. E ainda que não houvesse outras publicações à respeito, as pessoas já haviam consolidado, com a ajuda dos modelos exibidos em museus, seu imaginário do cavaleiro que tranca a esposa e parte para as cruzadas.

E, assim como no caso da crença num planeta plano, o orgulho gerado pelos avanços sociais, políticos e tecnológicos ao longo dos séculos também tem sua parcela de culpa. Afinal, que maneira melhor de se gabar e se auto-afirmar do que olhando para o passado, para um período encarado como a pausa das realizações humanas? Muito conveniente para quem busca destacar a suposta superioridade contemporânea.

*Essa palavra existe?

FONTES:

blogs.law.harvard.edu

psychologytoday.com

britishmuseum.org

todayifoundout.com

humanizm.net

semmelweis.museum.hu

wikipedia.org

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2 comentários sobre “Mitos sobre a Idade Média – O Cinto de Castidade

  1. Desmitificar lendas, desconstruir referências de alta confiabilidade histórica. Que sua curiosidade continue nos fornecendo elementos que nos permitam perguntar : Será que as coisas são exatamente assim como li, ouvi diver na mesa ao lado ou como assisti naquele program de tv tendencioso.

    Curtido por 1 pessoa

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